Olhando pela janela vejo uma metáfora do mundo contemporâneo. Uma das maiores cidades do mundo, com mais de vinte milhões de pessoas que nesse exato minuto estão dormindo, assistindo TV, usando computador, fazendo sexo, dirigindo, indo para mais uma noitada.
Não é a toa que São Paulo é considerada uma das capitais do mundo.
Olhando pela minha janela vejo uma metáfora da São Paulo contemporânea. É a obra do metrô logo ali, é o Instituto Tomie Ohtake mais a frente, são os restaurantes que enchem as ruas em volta, os bares, as pessoas, os cabelos pra lá e pra cá. Um slow motion de caras e atitudes gerando densidade demográfica assustadora num ponto ínfimo da cidade.
Da janela também vejo um posto de gasolina que abastece os automóveis para viagens, para o trabalho ou para a jornada rumo à próxima balada. Contudo percebo nesta mesma janela o meu reflexo. O reflexo de um ser que observa tudo isto sem ser um verdadeiro paulistano.S
ão Paulo é a maior rapadura nordestina que já vi. Doce e Dura. Calma e Insuportável. Vivemos às vezes numa lenda urbana sem fim, como se aqui onde vivemos a violência, a miséria e o descaso social não existisse. Isso até o primeiro soco no estomago em alguma esquina escura. Ou de tão cansado perder o ponto do ônibus de casa e acabar parando no final da linha do coletivo: no sentido bairro, na periferia, na favela.
Será que nos vestimos com lenços brancos umidecidos, cor-de-rosa, para não vermos situações tão alarmantes e tão transparentes?
São Paulo é tudo de bom.
Mas às vezes, é também, tudo de ruim.
Pois é, ele estava certo:
"Transaméricas de Áfricas utópicas
Tumulo do Samba,
Mais possível novo quilombo de Zumbi..."
Tuesday, May 12, 2009
Friday, September 12, 2008
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
"Vamos lá, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou é isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns morrerão mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, está já morto e não o sabe, Que temos de morrer, sabemo-lo desde que nascemos, Por isso, de uma certa maneira, é como se já tivéssemos nascido mortos."
(...)
"Pela porta do átrio que dá para a cerca exterior entra uma difusa claridade que cresce pouco a pouco, os corpos que estão no chão, mortos dois deles, os outros vivos ainda, vão lentamente ganhando volume, desenho, traços, feições, todo o peso de um horror sem nome, então a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."
(...)
"Também os faltam para ver este quadro, uma mulher carregada com sacos de plástico, andando por uma rua alagada, entre lixo apodrecido e excrementos humanos e de animais, automóveis e camiões largados de qualquer maneira e atravancando a via pública, alguns com as rodas já cercadas de erva, e os cegos, os cegos, de boca aberta, abrindo também os olhos para o céu branco, parece impossível como pode chover de um céu assim. A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixo-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele."
SARAMAGO, José.
Ensaio sobre a Cegueira
(...)
"Pela porta do átrio que dá para a cerca exterior entra uma difusa claridade que cresce pouco a pouco, os corpos que estão no chão, mortos dois deles, os outros vivos ainda, vão lentamente ganhando volume, desenho, traços, feições, todo o peso de um horror sem nome, então a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."
(...)
"Também os faltam para ver este quadro, uma mulher carregada com sacos de plástico, andando por uma rua alagada, entre lixo apodrecido e excrementos humanos e de animais, automóveis e camiões largados de qualquer maneira e atravancando a via pública, alguns com as rodas já cercadas de erva, e os cegos, os cegos, de boca aberta, abrindo também os olhos para o céu branco, parece impossível como pode chover de um céu assim. A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixo-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele."
SARAMAGO, José.
Ensaio sobre a Cegueira
Saturday, August 23, 2008
No poema “Isto” de Fernando Pessoa o eu- lírico ao final de sua jornada poética anuncia: “Sentir? Sinta quem lê.”
Portanto, sinta!
ALÉM DA IMAGINAÇÃO
“Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.”
Ulisses Tavares
Portanto, sinta!
ALÉM DA IMAGINAÇÃO
“Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.”
Ulisses Tavares
Monday, August 11, 2008
Subversiva
A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
GULLAR, Ferreira
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
GULLAR, Ferreira
Wednesday, August 06, 2008
Esta é uma história de fatos,
Você vê apenas o que você quer ver.
Num deserto você pode pensar o quanto você custa à esta sociedade...
Pensar em ter coração quando tudo se mostra contra estas constatações.
Você nunca pode estar a parte do que ocorre a sua volta,
Uma cobra, um leão, um escorpião...
Você é!
Você mantém e observa!
Você não tem ponto para seguir e se você se perder seu coração estará perdido para sempre.
Você é um pássaro e necessita voar, mas cuidado, vôos podem causar morte.
Se você conseguir detectar corações pulsantes, sangue escorrendo, mostre para mim.
Você está, você é, você mantém.
Como a vida pode ser o que você quer?
Não chore por ti, estás perdido!
Coração nenhum se mantém por mais de 107 anos!
Mas um raio de luz pode estar virado para você...
Você vê apenas o que você quer ver.
Num deserto você pode pensar o quanto você custa à esta sociedade...
Pensar em ter coração quando tudo se mostra contra estas constatações.
Você nunca pode estar a parte do que ocorre a sua volta,
Uma cobra, um leão, um escorpião...
Você é!
Você mantém e observa!
Você não tem ponto para seguir e se você se perder seu coração estará perdido para sempre.
Você é um pássaro e necessita voar, mas cuidado, vôos podem causar morte.
Se você conseguir detectar corações pulsantes, sangue escorrendo, mostre para mim.
Você está, você é, você mantém.
Como a vida pode ser o que você quer?
Não chore por ti, estás perdido!
Coração nenhum se mantém por mais de 107 anos!
Mas um raio de luz pode estar virado para você...
Wednesday, July 23, 2008
Quem já passou por essa vida e não viveu.
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu.
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não.
('Como dizia o poeta' - Vinícius e Toquinho)
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu.
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não.
('Como dizia o poeta' - Vinícius e Toquinho)
Eu tenho o costume de fazer algumas brincadeiras - irônicas ou não - sobre as pessoas que estão namorando ou apenas 'apaixonadas'. Eu posso ser interpretado de erradas maneiras com essas brincadeiras, mas depois de um tempo começamos a perceber que aquilo que falamos não pode ser levado a sério. Comigo pelo menos algumas coisas em algumas ocasiões não podem ser levadas à ferro e fogo.
Costumo dizer que 'odeio gente feliz' e 'odeio gente apaixonada', e mais, eu ainda me incluo nessas duas frases. Estar apaixonado é enjoativo e nauseante.
Imagina: ficar todo chamegos, pensando o dia todo na pessoa, morrendo de sofrimento, contando minutos e até segundos para ver, tocar aquele ser que tanto tinhamos almejado horas atrás. Quer coisa mais complicada que esta?
Mas nos entregamos a situações como estas por sermos humanos, somos alvo de carência e falta de amor, então temos que nos resignar e não lembrar das dores passadas, dos momentos infelizes de finais de outros relacionamentos. E esquecemos destes momentos realmente. Cada vez que nasce uma nova paixão mergulhamos de cabeça, descemos fundo em um nado sem volta. Paixão é afogamento. A sensação de retorno a superfície, de conforto e alívio vem depois com o amadurecimento do amor ou então com o término da relação. Não tem outra alternativa, fica tão sufocante aquela intimidade próxima, aquele ardor de fome, de beijos, de corpo, de sexo que ou vai ou fica pelo caminho.
Ao mesmo tempo que é tão sufocante, a paixão é tão sutil e leve como maresia. Entre os dois indivíduos participantes do caso apaixonante ao mesmo tempo que ocorre essa ferocidade pelo outro existe a sensibilidade, o carinho, o encontro dos dedos. Paixão é contrária as regras estabelecidas pela sociedade. É pura e perigosa.
Paixão é mãos dadas em uma praça na hora do por do sol, vento no rosto, cabelos remexidos, intesidade, vontade, e insaciabilidade.
Paixão é insuportável.
Saturday, July 19, 2008
Os Amores Possíveis...
Imagine um dia daqueles que pode-se dizer perfeito para dormir debaixo das cobertas com o amor da sua vida comendo chocolate, pipoca e vendo um bom filme romântico.
Ou então passear pela cidade de São Paulo que em alguns dias é calma e tranqüila: poderia pegar um bom cinema, um teatro ou apenas sair para jantar fora, dar uma volta.
Ainda mais aqui: uma infinidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Aí, você chega e me diz: sou solteiro! Meu Deus! Acabou-se.
Solteiro em São Paulo? SIM! Acontece...somos muitos, sempre ocupados, correndo na Av Paulista, no Metrô, no Centro ou para pegar um ônibus lotado e acabamos por nos desencontrar, no caso você e sua alma gêmea.
É uma luta eterna de prazeres, andares, vias, procuras... Estamos nos procurando, mas ainda não nos esbarramos.
Será mesmo?
A maior capital da América do Sul, a mais caótica de todas e perante tanta gente, ninguém te satisfaz?
E ainda, quando começa a satisfazer, a pessoa parece que não está satisfeita?
O problema é seu?
Pode até ser.
Mas nesta cidade tumultuada que tem garoa a rodo, buzinas, carros e pedestres disputando espaço no escuro 'anoitecido', em algum lugar deste território um dos quase 20 milhões de habitantes precisa aprender os seus defeitos.
E amá-los como se fossem seus...
...e aí eu comprarei chocolates e pipocas!
d'onde estão os amores possíveis?
Ou então passear pela cidade de São Paulo que em alguns dias é calma e tranqüila: poderia pegar um bom cinema, um teatro ou apenas sair para jantar fora, dar uma volta.
Ainda mais aqui: uma infinidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Aí, você chega e me diz: sou solteiro! Meu Deus! Acabou-se.
Solteiro em São Paulo? SIM! Acontece...somos muitos, sempre ocupados, correndo na Av Paulista, no Metrô, no Centro ou para pegar um ônibus lotado e acabamos por nos desencontrar, no caso você e sua alma gêmea.
É uma luta eterna de prazeres, andares, vias, procuras... Estamos nos procurando, mas ainda não nos esbarramos.
Será mesmo?
A maior capital da América do Sul, a mais caótica de todas e perante tanta gente, ninguém te satisfaz?
E ainda, quando começa a satisfazer, a pessoa parece que não está satisfeita?
O problema é seu?
Pode até ser.
Mas nesta cidade tumultuada que tem garoa a rodo, buzinas, carros e pedestres disputando espaço no escuro 'anoitecido', em algum lugar deste território um dos quase 20 milhões de habitantes precisa aprender os seus defeitos.
E amá-los como se fossem seus...
...e aí eu comprarei chocolates e pipocas!
d'onde estão os amores possíveis?
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