Wednesday, May 12, 2010

.:48

É difícil começar a escrever sobre algo que foi planejado há tanto tempo. Tudo começou com uma historinha curiosa e tímida, coisa de criança.

Meu irmão ao saber que uma amiguinha da escola iria viajar à Disney, pediu para ela trazer-lhe um chapéu do personagem Pateta. Sim, aquele com o focinho e as orelhas caídas. Por alguma desventura, talvez felizmente, a menina não trouxe o tal do "boné" e meu irmão ressentido contou para minha mãe o ocorrido e ela em sua benevolência materna disse:

"- Meu filho não se preocupe, você terá o chapéu. Você vestirá o chapéu. Você se divertirá na Disney. E ainda terá uma babá."

Os fatos decorrentes a partir desse momento ficará para sempre em minha memória, pelo simples fato de eu ter me tornado a babá do meu irmão. E hoje, depois de dois ou três anos consigo entender e perceber toda essa amplitude. Babá mesmo. Daquelas que vão ter que tomar conta. Dar de comer, banho, trocar fralda etc etc etc. A magnitude desse poder todo veio à tona quando percebi que sem mim, modéstia a parte, por um lado essa viagem não aconteceria.
E não é por conta da grana, ou da preguiça ou da falta de sensibilidade com algumas coisas.

Se eu não agitasse, se eu não corresse atrás de passaporte e o tão temido visto, talvez não estaria aqui agora, com quase toda a viagem marcada. Complicado dizer isso quando se têm familiares que não entendem todo esse esforço. Mas enfim, consigo entender o outro lado, o do esforço deles de juntar todo o dinheiro necessário. Consigo enxergar todo o sacrifício feito para acontecer essa viagem em vias monetárias, físicas e psicológicas.

Hoje talvez entenda que tudo foi equilibrado. O incentivo na hora certa e a verba dificilmente obtida de um lado e do outro o meu "correr atrás" de documentações, informações, planos e pacotes. Fomos mesmo um time, mas só consigo enxergar isso agora. Portanto, devo um pedido de desculpas a todos pelo meu estresse com tudo o que concerne à questão do visto norte-americano.

Agora, com as devidas explicações e desculpas assinadas, venho aqui informar que este blog agora, terá como caminho inevitável contar todas as minhas angústias, medos, aflições, ansiedades, nervosismos, alegrias, emoções, choros e risadas que acontecerão antes e durante essa viagem. Esse espaço além de ser um direito ao grito de mundo, de ser-estar, de sentir-protagonizar, pode ser também um grito do alto de uma torre. A mais alta que houver. Porque até no mais doce Castelo e na maior queda de uma montanha-russa, há o direito ao grito!

Tuesday, January 26, 2010

Voo xxxx.
Empresa aérea Web Jet.
Horário do voo: 16h00
Origem: Brasília (BSB)
Destino: São Paulo (GRU)

Antes de entrar no avião percebi que a pintura da empresa não estava muito em dia, que tinha umas "rachaduras" no corpo do avião. Mesmo assim, indo contra toda a minha sensatez entrei no avião.

Todos embarcados. Todos esperando a autorização da torre de comando de Brasília para decolarmos sentido sudeste do Brasil.

Eu, claro, como sempre, morrendo de pânico. Mãos suando. Pernas inquietas. Olhares atentos. Percepções grandes. Tudo catalisado. Medo de tudo.

Eis que alguém no banco de trás solta:

"sabia que a webjet é considerada a empresa aérea pau-de-arara do Brasil?"

só isso.
é armadilha.

Monday, September 14, 2009

Cadastro, Certidão, Registro

Envelopes em papel de carta
Palavras doces, palavras açucaradas
Paixão transbordando sofrimento.

Distância de viver a vida sem o outro
Quilômetros de poesia
Olhares e recados marejados
Pingos nas pontas dos olhos.

Lágrimas se formam em história
[na mudança dos nomes dos amantes.

O querer é poderoso,
mas o poder não quer selos.

O tempo não passa, a história se arrasta
A chuva que cai no lado de fora faz gotejar solidão no telhado úmido.
Cadastros, registros, certidões,
Documentação

[Para entender que paixão é dor,
Paixão é sofrimento,
E a dor é opcional.

Raphael Yanes/dezembro de 2006

Friday, September 04, 2009

Impactos Amarelos

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

Manuel Bandeira


Que importa a paisagem, o Ibirapuera, o parque, a linha de poluição no horizonte?
- O que eu vejo é o túnel do metrô.

Raphael Yanes

Thursday, July 16, 2009

Tenho me pegado bem pensativo ultimamente, apegado a fotos e fatos, perdendo de vista o foco do futuro. Me sentindo perdido, sabecomé? É meio estranho pra mim, e ao mesmo tempo não, pois na minha vida sempre foi assim: eu vou vivendo e esperando o que vai acontecer e geralmente as coisas acontecem.

Sei lá, talvez possa ser o tom melancólico da música do momento, ou todo esse desespero de fim do mundo que está por vir, ou não sei, talvez a esperança de que as coisas estão prestes a acontecer tenha ido embora.

Assim, chegou no quarto pela manhã e disse: 'oi, beijão, tô indo!'.

A vida tem dessas né? De te mostrar que tá tudo ali na mão, e de repente como que para uma criança te tira o doce e é fria e desgostosa. O importante mesmo é olhar pra vida e dar risada, porque por mais que ela tire o doce da sua mão ainda dá pra ir ao mercado e comprar leite condensado pra fazer brigadeiro e achar graça da tal vida por ter apenas um doce na mão, e a gente uma tigela inteira!

Dá até pra sentir a invejinha que emana da vida, do mundo. Então temos dois caminhos: ou viramos as costas e comemos o pote todo do negro doce ou oferecemos um pouco pra ver se tanto a vida como nós mesmos adoçam um pouquinho!

Tuesday, May 12, 2009

Olhando pela janela vejo uma metáfora do mundo contemporâneo. Uma das maiores cidades do mundo, com mais de vinte milhões de pessoas que nesse exato minuto estão dormindo, assistindo TV, usando computador, fazendo sexo, dirigindo, indo para mais uma noitada.
Não é a toa que São Paulo é considerada uma das capitais do mundo.

Olhando pela minha janela vejo uma metáfora da São Paulo contemporânea. É a obra do metrô logo ali, é o Instituto Tomie Ohtake mais a frente, são os restaurantes que enchem as ruas em volta, os bares, as pessoas, os cabelos pra lá e pra cá. Um slow motion de caras e atitudes gerando densidade demográfica assustadora num ponto ínfimo da cidade.

Da janela também vejo um posto de gasolina que abastece os automóveis para viagens, para o trabalho ou para a jornada rumo à próxima balada. Contudo percebo nesta mesma janela o meu reflexo. O reflexo de um ser que observa tudo isto sem ser um verdadeiro paulistano.S

ão Paulo é a maior rapadura nordestina que já vi. Doce e Dura. Calma e Insuportável. Vivemos às vezes numa lenda urbana sem fim, como se aqui onde vivemos a violência, a miséria e o descaso social não existisse. Isso até o primeiro soco no estomago em alguma esquina escura. Ou de tão cansado perder o ponto do ônibus de casa e acabar parando no final da linha do coletivo: no sentido bairro, na periferia, na favela.

Será que nos vestimos com lenços brancos umidecidos, cor-de-rosa, para não vermos situações tão alarmantes e tão transparentes?

São Paulo é tudo de bom.






















Mas às vezes, é também, tudo de ruim.

Pois é, ele estava certo:
"Transaméricas de Áfricas utópicas
Tumulo do Samba,
Mais possível novo quilombo de Zumbi..."

Friday, September 12, 2008

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

"Vamos lá, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou é isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns morrerão mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, está já morto e não o sabe, Que temos de morrer, sabemo-lo desde que nascemos, Por isso, de uma certa maneira, é como se já tivéssemos nascido mortos."


(...)


"Pela porta do átrio que dá para a cerca exterior entra uma difusa claridade que cresce pouco a pouco, os corpos que estão no chão, mortos dois deles, os outros vivos ainda, vão lentamente ganhando volume, desenho, traços, feições, todo o peso de um horror sem nome, então a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."


(...)


"Também os faltam para ver este quadro, uma mulher carregada com sacos de plástico, andando por uma rua alagada, entre lixo apodrecido e excrementos humanos e de animais, automóveis e camiões largados de qualquer maneira e atravancando a via pública, alguns com as rodas já cercadas de erva, e os cegos, os cegos, de boca aberta, abrindo também os olhos para o céu branco, parece impossível como pode chover de um céu assim. A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixo-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele."

SARAMAGO, José.
Ensaio sobre a Cegueira